Nunca o havia visto de tão perto, aliás, havia inúmeras vezes, mas até então era cega, surda, insensível, e ele, o fabuloso infinito de ondas era apenas uma parte minúscula de uma composição, um quadro leve no ar, com tons de cores vivas, poesia, não havia crueldade em seus domínios. Porém agora observava atentamente os detalhes das ondas, que balançavam, imponentes, lavando a terra, e como o mar era ditador, tenebroso, nem sequer prestava atenção no que carregava consigo, nos belos monumentos que arrastava em seus movimentos, em sua dança eterna entre tons de verde, azul, roxo, engolindo tudo e todos em sua fúria. Mas o balançado do mar era como o dela, e nela pulsava a sensação, o calor de ter encontrado o primeiro amor, mas no seu caso, amava-o de todas as maneiras possíveis, como pai, amigo, amante, carrasco. Não havia lugar no mundo mais belo que aquele, e não pela areia, pela lua, estrelas, não. O mar era perfeito e único, supria todos os desejos da menina apenas pela sua presença. Não era nada demais, apenas água salgada para os outros, um mundo de bichos estranhos, perigoso, traidor. Mas para ela… Sabia que não era exclusivamente seu, pertencia ao mundo, pertencia a si mesmo, mas que lhe importava? Ela o amava com todo o seu sentimento, morreria por ele, entregaria seu corpo e sua alma para que fossem sepultados dentro dos limites de sua imensidão. O amava mais que ao próprio marido, filhos, mãe, pai, qualquer um, era como se o mar fosse dela um órgão vital, um destino inevitável, inalcançável, incompleto. Era consciente dos versos fantasiosos que formava, tão humana. O mar era apenas o mar, e ela era apenas ela, mas queria sonhar com sua beleza, que um dia seria notada, que dormiria para sempre envolta em seu belo manto, sendo embalada por sua essência.