Segunda-feira
Sentou para escrever, cadeira de veludo escuro, velha, coisa da avó. Sentou para escrever, mas não tinha o que escrever, nem sabia como escrever, mas queria tanto escrever, tanto mostrar para o mundo os seus obscuros pensamentos. Batia na cabeça com a caneta, às vezes, impaciente do jeito que era batia com a caneta no papel e murmurava “merda, nada em mente”. Uma grande merda realmente, e assim passou por muito tempo. Querendo escrever, e sem saber como. Uma idéia surgia, sacudia sua cabeça inteira, mas então o corpo não respondia, parava então, suspirava indecisa, não, a idéia não era boa o suficiente, passava para a próxima, nada de útil, algo muito Machado de Assis.
Terça-feira
Sentou para escrever, no jardim da casa, o ar fresco da madrugada acariciando seu corpo. Ainda não tinha o que escrever, mas escreveu um conto muito simples, que chamou de “A madrugada”. A madrugada, que nome simplório, simples, feio. Tão comum como poemas de amor, como gostar de Machado de Assis e citar escritores em suas próprias obras. Comum. Clichê. Chato. Tedioso. Não, não era bom o suficiente, queria mais, uma boa idéia. Todos fazem coisas sobre Machado de Assis, escrevem citando Machado de Assis, brincam com seus textos e seu realismo psicológico, não, ela era muito mais que Machado de Assis e seus textos, ela tinha sentimentos, uma visão diferente da realidade, era o topo da intelectualidade, não, nada de escritores comuns.
Quarta-feira
Sentou para escrever, quem sabe a cozinha da casa, o alimento, a transmutação e principalmente os azulejos portugueses brancos de sua avó. A comida era como a passagem da morte para a vida, o que era morto pelos humanos se transformava em alimento que dava vida ao corpo, o nutria, o nutria como nutria sua escrita, como nutria sua alma, uma grande fantasia, idéias soltas, soltas como pássaros livres, batia com a caneta no papel. Batia e agora quase chorava, chorava de ódio, porque não conseguia escrever. Machado de Assis vinha aos seus pensamentos, quem sabe as coisas fluíssem para ele, mas não! Nada de Machado de Assis, todos sabiam de Machado de Assis, todos comentavam Machado de Assis.
Quinta-feira
Sentou para escrever, ligou o computador da sala, e também a televisão com inutilidades. A grande programação brasileira, a massa assistindo novela e baixaria, xingão daqui e dali. Aquilo a deixava com raiva, com raiva da ignorância brasileira, com raiva do capitalismo, dos dogmas da sociedade, com raiva dela mesma. Escreveu então, com raiva, com fúria, escreveu uma crônica digna de um grande mestre da literatura. Escreveu por todos os grandes fidalgos portugueses que nunca escreveram, escreveu como Camões nunca escrevera, escreveu como Machado de Assis jamais sonhara em seus mais valiosos sucessos. E sua idéia superava Machado de Assis, era feminina, única.
Sexta-feira
Não sentou para escrever. Levou sua obra até a faculdade, orgulhosa de tudo o que escrevera por uma noite, fruto de sua criatividade, do seu esforço. Levou debaixo do braço seus cadernos, com anotações diversas, levou o seu orgulho debaixo do braço, sua arrogância, o seu diferencial de Machado de Assis. E tão orgulhosa, com o nariz gigantesco empinado, quase sorrindo para todos que a observavam chegar cheia de vida e mostrar sua obra para o professor de literatura. Uma crônica curta, ela a entregou satisfeita, ele prometeu lê-la durante o final de semana, a resposta viria por e-mail.
Sábado
Não sentou para escrever, nem leu um livro. Criticou a sociedade em conversas com seus amigos no bar, ouvindo bossa nova, criticou Machado de Assis. A resposta não havia chegado.
Domingo
Sentou para escrever, ligou o computador. Não escreveu, abriu o e-mail com os comentários do professor:
Querida Sofia,
Sua crônica é fantástica, sempre esperei grandes feitos de uma das minhas melhores alunas, você realmente deveria publicá-la, a semelhança com Machado de Assis é evidente, é muito gratificante ver uma aluna tão interessada neste grande autor da literatura brasileira, continue seu trabalho.
Professor Antônio
Ela rasgou as folhas que havia escrito e foi dormir. Maldito Machado de Assis.
Hahaha, divertido! Muito divertido!